Quando Hegel (1770-1831) escreveu que a coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer, deixou uma observação que continua a atravessar os séculos com desconfortável atualidade. A compreensão chega tarde. Primeiro vivemos os acontecimentos; apenas depois tentamos entendê-los. A lucidez raramente acompanha os factos. Surge quando estes já se instalaram no dia-a-dia e começaram a moldar silenciosamente os hábitos, as expectativas e os receios de uma sociedade. É isso que acontece hoje em Portugal. Há muito que se instalou a sensação de que qualquer coisa não bate certo. Não se trata de uma crise súbita, nem de uma catástrofe facilmente nomeável. É antes uma inquietação difusa, uma espécie de desalinhamento entre aquilo que o país promete e aquilo que oferece a quem nele vive. Essa sensação está por todo o lado, embora raramente assuma a mesma forma. Basta olhar à volta. Os cafés continuam cheios. As esplanadas também. O sol cai sobre as fachadas exatamente como há cinquenta anos. O...
RUI CALISTO
Ator, encenador, investigador e escritor.